Mas por que se exibir? Para que? Por que o olhar do outro é tão valorizado?
Para muitos estudiosos, tais fenômenos, decorrem da popularização dos meios audiovisuais e do declínio da cultura letrada. A invenção do cinema, no fim do século XIX, e, sobretudo, sua conversão em um meio de comunicação de massa durante a primeira metade do século XX, teria sido um momento de inflexão para a emergência da atual ‘sociedade do espetáculo’.
No hipercapitalismo todas as coisas se transformam em imagem. Em uma sociedade do espetáculo as relações pessoais são organizadas no sentido de uma avassaladora troca de imagens. Não existe distinção entre aparência e essência: na sociedade do espetáculo a aparência torna-se o mais importante.
Ao longo do século 20, vários pensadores se dedicaram a compreender esse “fetiche” da mercadoria utilizando vários instrumentais teóricos e metodológicos. É nessa tradição que “A sociedade do espetáculo” está. O aspecto material da mercadoria não é o mais importante: a imagem da mercadoria é o fator determinante na sociedade.Guy Debord afirma que no início do capitalismo houve uma passagem do ser para o ter. No hipercapitalismo há uma nova transformação só que do ter para o parecer. O domínio do parecer é domínio da visualidade. Debord parece pensar uma sociedade do espetáculo como um conjunto de relações sociais mediadas pela imagem.
A distribuição das imagens espetaculares acontece em todos os lugares do cotidiano, mas multiplica seu alcance nas redes eletrônicas – a mídia é o lugar de intersecção e redistribuição das imagens espetaculares em direções variadas no espaço e no tempo. Se é possível aplicar a idéia de sociedade do espetáculo à crítica da mídia, é como um espaço de concentração –distribuição de imagens que prolonga um elemento presente na vida cotidiana. Os meios de comunicação, para Debord, podem ser entendidos como expressão última ou um canal privilegiado de expressão das imagens construídas no meio social. A mídia não é responsável pela sociedade do espetáculo; é um dos caminhos do espetáculo, possivelmente o mais poderoso, mas não o único.
De algum modo, essa egolatria e essa espetacularização que hoje proliferam na autoexibição via internet ou nos reality shows e que, em outras épocas seria considerada falta de elegância e de pudor ou, até mesmo, deplorada como um tipo de patologia mental, a ‘megalomania’, hoje, se tornou habitual. Em um ambiente altamente competitivo, no qual primam a eficácia e a performance visível de cada um, e no qual a celebridade se transformou em um fim em si mesmo e por todos desejado, poderíamos pensar que a autoexposição se tornou um recurso necessário para sobreviver. Ou seja, é preciso saber ‘se vender’, posicionar o ‘eu’ como boa marca no concorrido mercado das aparências, cultivar constantemente a própria imagem; tudo isso porque é necessário conquistar a visibilidade para poder ‘ser alguém’.Priscilla Aguiar



